Narrativas vs. Evidências: Como dados frágeis ganham status de verdade absoluta para alimentar narrativas
Atualizado há 5 dias, 9 horas
Essa semana me deparei com uma reportagem veiculada pela Globo News1 falando sobre a problemática do uso indevido da inteligência artificial Grok para gerar imagens sexualizadas de mulheres e crianças.
No decorrer da matéria, foram apresentados alguns números para embasar a problemática comparando a quantidade de imagens geradas por hora com imagens publicadas outros cinco sites, sem especificar quais, concluindo que o Grok está sendo usado de forma desproporcional e pública pelos usuários para gerar conteúdo impróprio e ilegal.
Algo que me intrigou durante a reportagem foi como foram coletados tais dados que embasaram a quantidade de imagens por hora, principalmente a classificação de que tipo de imagens foram geradas, uma vez que o Grok não fez nenhuma divulgação própria desses dados, então provavelmente seriam originados de terceiro.
Para investigar a metodologia da pesquisa, busquei o nome da fonte que apareceu abaixo de um gráfico na reportagem, Genevieve Oh, e tentei localizar a pesquisa original. Em seguida, encontrei a publicação original que continha as informações, uma matéria veiculada no site Bloomberg.2
Depois de passar pela paywall do site, li a reportagem inteira na esperança de encontrar maiores informações a respeito da metodologia da pesquisa, da pesquisadora ou ao menos alguma referência de onde poderia encontrar a pesquisa em si.
Para minha surpresa, não havia nenhum dado além do que o que foi divulgado no Globo News, nenhum aprofundamento da metodologia ou indicação de onde está a pesquisa original. Além disso, a pesquisadora é apresentada na reportagem apenas como "a social media and deepfake researcher". Tentei pesquisar no Google quem seria essa pesquisadora e não encontrei nenhuma informação, o que levanta a dúvida do quanto esses dados de fato deveriam ser divulgados e replicados como verdade concreta por tantos veículos de informação da forma que foram após a publicação da matéria original.
Esse tema de imagens geradas por inteligência artificial sem nenhum filtro, sem autorização da pessoa que detém o direito de imagem original, é sem dúvidas urgente e de extrema importância, mas acredito que os veículos de informação deveriam tomar mais cuidado ao citar fontes para não usar qualquer dado como absoluto e correto apenas para sustentar uma narrativa previamente determinada. É importante que o jornalismo responsável assuma o papel de informar como um todo e contextualizar o suficiente as informações para que seja possível conferir aquilo que está sendo divulgado.
Aprofundando a pesquisa sobre o tema, é possível identificar matérias que de fato se preocuparam com a profundidade das informações e clareza da metodologia da origem dos dados, como por exemplo "Elon Musk é criticado por não acabar com "nudes digitais" feitos com o Grok" publicada na CNN3 e "Grok está gerando cerca de ‘uma imagem sexualizada não consensual por minuto’" publicada pela RollingStone Brasil.4
No caso dessas duas matérias, os autores tiveram o cuidado de citar e contextualizar as fontes, detalhando inclusive o que foi pesquisado e o que objetivamente foi encontrado. Frases como "continham indivíduos com roupas mínimas, roupas íntimas ou biquínis" ao invés de simplesmente dizer que eram imagens sexualizadas, apresentam maior objetividade na hora de tratar de informações tão importantes, algo essencial para o debate público, principalmente tratando do objetivo final de regulamentação do uso da IA por parte dos governos.
Ainda, no caso específico da notícia veiculada pela Globo News, mesmo que não tivessem acesso a dados mais precisos, era possível apresentar toda a problemática alvo da matéria, sem apresentar os dados específicos em um gráfico bonitinho de x imagens geradas por hora como verdade absoluta, só não seria tão dramático para sustentar a narrativa proposta. Também existiria a possibilidade de fazer uma apuração própria para tentar chegar nos dados apresentados pela pesquisadora, mas parece que não era interessante para o contexto.
Dessa forma, reforço a importância da checagem fonte original, além de, toda a vez que surgir alguma dúvida em relação ao dado que foi noticiado, a necessidade de pesquisar para tentar localizar a metodologia, ou até mesmo replicar o estudo caso seja viável. É essencial verificar os dados apresentados e formar suas próprias conclusões.
Lembre-se: Tudo que é publicado em qualquer veículo de informação tem o propósito de levar você a pensar de determinada forma em relação a um conjunto de fatos e, partindo de premissas diferentes, a conclusão para os mesmos fatos pode ser completamente diferente.
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Disponível em: https://g1.globo.com/globonews/conexao-globonews/video/rede-social-x-limita-uso-da-inteligencia-artificial-grok-para-edicao-de-imagens-14240144.ghtml, acesso em 10/01/2026.↩
Disponível em:https://www.bloomberg.com/news/articles/2026-01-07/musk-s-grok-ai-generated-thousands-of-undressed-images-per-hour-on-x, acesso em 10/01/2026.↩
Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/elon-musk-e-criticado-por-nao-acabar-com-nudes-digitais-feitos-com-o-grok/, acesso em 10/01/2026.↩
Disponível em: https://rollingstone.com.br/entretenimento/grok-esta-gerando-cerca-de-uma-imagem-sexualizada-nao-consensual-por-minuto/, acesso em 10/01/2026.↩